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Entrevista Vicente Falconi
11/01/2010

Considerado uma das maiores autoridades em gestão da qualidade, o professor Vicente Falconi Campos, consultor respeitado internacionalmente, é um pioneiro. Desde 1984, vem se dedicando ao assunto. Hoje, setores inteiros da economia brasileira se tornaram competitivos até para os padrões do primeiro mundo, conquistando os exigentes mercados internacionais. À frente da Fundação de Desenvolvimento Gerencial - FDG, Falconi presta serviço de consultoria a empresas mineiras, brasileiras e estrangeiras, inclusive em seus países de origem, seja na América Latina, nos Estados Unidos ou na Europa. Autor de vários livros e uma referência quando se fala em gestão, Vicente Falconi concedeu ao Qualidade Minas a seguinte entrevista exclusiva:

Qualidade Minas: O senhor é pioneiro em gestão da qualidade no Brasil desde a década de 80, quando voltou do Japão com um revolucionário e eficaz modelo de gestão na bagagem, logo adotado por várias empresas nacionais. Chegou a haver mesmo uma febre de "qualidade total" no país, até um certo modismo, em determinado momento. Nesses 20 anos, o que mudou?

Vicente Falconi:
Muita gente dominou o assunto e hoje eu não teria dúvidas em lhe afirmar que as empresas estão num bom nível de competitividade internacional, só falta um ambiente macroeconômico nacional menos hostil ao nosso empresário. Por outro lado estamos atuando também no exterior e isto é uma boa chance de observar como estão as empresas brasileiras em relação às suas concorrentes no exterior no tocante à capacidade gerencial. Não estamos mal.

Q.M.: As grandes empresas públicas e privadas instaladas no país já adotam diferentes métodos de gestão com bons resultados, há bastante tempo. Aqueles setores da economia por natureza mais competitivos também. O senhor acha possível a disseminação ampla dessas práticas de gestão, pelos diversos setores da economia, chegando até as pequenas e micro empresas e à administração pública?


V.F.: Sem dúvida. A prática destes métodos e técnicas por um número cada vez maior de pessoas cria não só maior competitividade da economia como também maior capacidade de disseminação. Estamos criando gerentes (e futuros consultores) de elevada competência. Acredito que quanto melhor somos agora melhor seremos no futuro. O conhecimento não tem dono, é inesgotável e cresce sempre. Basta que dê frutos.

Q.M.: Várias empresas exportadoras nacionais ou que operam no Brasil, especialmente as concentradas em algumas áreas como a siderúrgica, por exemplo, chegam a incomodar a concorrência externa até em seu próprio território, colocando no mercado internacional, principalmente nos países mais desenvolvidos, produtos de qualidade superior a preços muito competitivos. Isto reflete a obsolescência do parque industrial dos países mais ricos, a prática de "dumping" pelas empresas nacionais ou é competência mesmo?

V.F.: É competência gerencial mesmo. É lógico que no caso da siderurgia temos certas vantagens competitivas. No entanto, temos também as mais altas taxas de juros do mundo! Não faríamos aço com a qualidade de exportação se não fôssemos bons gerentes.

Q.M.: O senhor vê o Programa Mineiro da Qualidade e Produtividade – PMQP como estratégico para o desenvolvimento econômico e social de Minas no médio e longo prazo?

V.F.: O PMQP é mais um agente promotor da difusão destas técnicas gerenciais e todo esforço nesta direção deve ser incentivado. Gostaria de reproduzir aqui uma frase de Peter Drucker que coloquei na primeira página de meu livro "Gerenciamento pelas Diretrizes" e que diz tudo sobre a principal alavanca da competitividade no mundo em que vivemos: "Os fatores tradicionais de produção - terra, mão-de-obra e até dinheiro, pela sua mobilidade – não mais garantem vantagem competitiva a uma nação em particular. Ao invés disto, o gerenciamento tornou-se o fator decisivo de produção".

Q.M.: Qual a importância do Prêmio Mineiro da Qualidade?

V.F.: Dentro de um esforço muito grande de difusão destes métodos e técnicas por todo o estado com a finalidade de trazer melhores condições de vida a todos os mineiros, o Prêmio poderia ser a comemoração dos resultados obtidos pelos mais esforçados.

O Programa Mineiro de Qualidade e Produtividade vai realizar, no período de 24 a 27 de novembro deste ano, a 1ª Semana da Qualidade. A abertura do evento acontecerá durante a solenidade de entrega do Prêmio Mineiro da Qualidade. Nos outros três dias, o evento deverá ser temático, com o aprofundamento de um assunto por dia de trabalho. Para o desenvolvimento dos trabalhos, foi criado um grupo executivo com quatro membros, chamado "pequeno comitê", que reuniu-se no último dia 24 de julho. O pequeno comitê concentrou seus trabalhos no desenvolvimento e definição de grade horária e na definição de nomes e temas para as palestras, conferências e cases, para submeter oportunamente à Comissão Organizadora. Após a aprovação pela comissão e confirmação dos palestrantes convidados, a programação será divulgada.

O formato da 1ª Semana da Qualidade deverá contemplar a realização de conferências, palestras e mesas redondas com temas ligados à gestão da qualidade e protagonizados por profissionais renomados. Estão programadas, ainda, apresentações das organizações participantes do Prêmio Mineiro da Qualidade e cases de sucesso nas diversas áreas de trabalho dos comitês setoriais e regionais do PMQP.

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Alguns dos princípios do consultor Vicente Falconi, descritos em seu novo livro, O Verdadeiro Poder.

"Declarar um problema deve ser uma alegria"

Segundo Falconi, a maioria das pessoas reluta em assumir que tem problemas. Mas, para melhorar continuamente, as empresas devem fazer isso mesmo quando estão satisfeitas com seus resultados. É uma maneira de perseguir algo sempre mais ambicioso. "Se uma empresa quer vender mais, terá que declarar como problema o baixo volume de vendas mesmo que o desempenho dos vendedores seja considerado ótimo", afirma.
Algumas empresas utilizam do conceito "problema", como uma oportunidade para desenvolver melhorias na sua operação.

"A vontade de querer ser o melhor deve ser incentivada e valorizada"

Uma das maneiras de inspirar as pessoas a buscar o melhor resultado é fazer com que todos estabeleçam o que ele chama de "lacuna". É a distância entre o momento atual e um ponto ideal, estabelecido com base no desempenho de concorrentes ou numa aspiração, como ser o maior do mundo em um determinado setor. "Os principiantes tremem diante da lacuna porque pensam que isso é meta. Não é ", afirma Falconi . Segundo ele, a lacuna ajuda a estabelecer metas, além de dar uma visão de futuro para a companhia.

Certa vez, um gerente questionou o seu supervisor, sobre como ele conseguia motivar os operadores de uma linha de montagem, dentre vários exemplos citados o que chamou a atenção do gerente foi a aplicação de metas para todos os operadores sendo essas indicadores qualitativos e quantitativos e premiações dos melhores resultados.

"Decisões com base em opiniões, em geral são desastrosas"


Falconi acredita na disciplina da análise para estabelecer metas. É o primeiro passo do método gerencial PDCA (do inglês Plan, do, check and action). "A meta fácil demais a ser atingida não leva à busca de conhecimento. A meta impossível de ser atingida leva ao desânimo. É por isso que a meta tem de ser colocada de forma técnica", afirma.

Através da definição de um indicador de uma determinada meta o profissional realiza todas as análises como o ciclo PDCA, e o mais importante aprimora seus conhecimentps atuando como se fosse um "investigador" das possíveis soluções para esta oportunidade (problema).

"Quem tem muitas prioridades acaba por ter nenhuma"


Segundo Falconi, é importante definir entre três e cinco metas prioritárias para perseguir e acompanhar. "Nunca mais que isso ", afirma Falconi. Do contrário pode existir uma confusão sobre o que de fato importa, o que compromete o sucesso do segundo passo do método a execução. Além das metas prioritárias existem os ítens de controle que devem ser monitorados, caso ocorra grandes variações esses ítens de controles devem ser estipulados como metas prioritárias.

"Liderar é bater metas consistentemente"

Falconi tem uma definição pragmática a respeito da gestão de pessoas. Para ele a principal missão de um executivo é saber estabelecer metas e cobrá-las sistematicamente até atingi-las. "Somos procrastinadores" diz. "As pessoas gostam de ter metas porque sentem o que fazem é importante." Como comentado anteriormente, todos nós devemos ter metas, desde a pessoa da limpeza, que pode ser uma atividade simples, mas que mal feita pode gerar transtornos.

"Crie uma cultura de enfrentamento"

Para combater a falta de execução é preciso criar o que Falconi chama de "cultura de enfrentamento dos fatos". É fundamental para os outros dois passos do PDCA, checagem de resultados e correção de rumo. Significa, por exemplo, apontar quem não entregou resultados. Segundo Telles: "Melhor ficar vermelho uma vez do que passar o resto da vida amarelo".

A empresa Ambev, no qual Falconi é um dos conselheiros utiliza-se do sistema de farol (vermelho (fora da meta), amarelo (andamento) e verde (superando a meta), esse farol é confrontado todos os dias no qual gera planos de ações de melhorias e acompanhamentos.

"Nunca vi uma pessoa de sucesso que não ama o que faz"

Segundo o consultor , pessoas que não gostam do que fazem tendem a "livrar-se da tarefa o mais rapidamente possível". Seus chefes deviam fazer um favor : dar-lhes a chance de encontrar algo que amem fazer, colocando-as à disposição de outro departamento ou, simplesmente, mandando-as embora" afirma ele. Neste caso, se usa muito a expressão "está no sangue" ou a de "dono do negócio", este profissional realmente gosta do que faz e conquista os melhores resultados.


Fonte: Revista Exame
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